Padeirinho e o Samba Feito pra Chatear

Padeirinho da Mangueira sentado em um banco de bar tocando pandeiro com prateleiras de garrafas ao fundo

Um amigo tinha brigado com a noiva e chegou pro Padeirinho com um pedido inusitado: queria um samba só de gírias, feito pra chatear a menina. Padeirinho relutou. Não era esse tipo de encomenda que o animava — ele compunha pro morro sambar, não pra servir desavenças amorosas. Mas o amigo insistiu tanto que o sambista cedeu. Daquela provocação nasceu Mora no assunto, samba que enfrentou censura da diretoria e uma gravação não autorizada antes de virar sucesso nas ruas do Rio.

Padeirinho — chamado assim por ser filho de padeiro — era aquela vocação pura do sambista nato. Trabalhava como estivador, compunha na calada da noite, arquivava suas criações num caderno de estudante que guardava escondido no barraco. Não entendia muito de direitos autorais, contratos, gravações. Mas sabia fazer o morro inteiro se mexer. Mora no assunto nasceu assim — sem pretensão, virando fenômeno por conta própria.

Quando ficou pronto, Padeirinho e o amigo apresentaram o samba para Francisco Ribeiro, seu Chico Porrão, então diretor da escola. Francisco escutou por cinco minutos e mandou parar. Censurado. O samba era pesado, cheio de gírias. As pastoras, porém, gostaram. E quando as pastoras da Mangueira adotam um samba, não tem diretoria que segure. Sempre que Mora no assunto era tocado nos ensaios, a quadra enchia de gente. O povo cantava, sambava, pedia bis. Chico Porrão foi obrigado a recuar. No final do ano, estava até gostando da composição que havia censurado meses antes.

O samba ganhou as ruas, virou hit nos morros e subúrbios, e chamou a atenção de Jamelão. O intérprete oficial da Mangueira gravou Mora no assunto sem pedir autorização a Padeirinho. O compositor não ligou muito no começo. Mas o pessoal começou a reclamar, dizendo que aquilo não era legal, que Padeirinho estava sendo passado pra trás. Ele resolveu falar com Jamelão e demorou três meses até conseguir assinar o contrato.

— Esse negócio de gravação não é comigo. Eu não vivo disso, meu amigo. Sou estivador e gosto mesmo é de compor na calada da noite — dizia Padeirinho, sem rancor, sem revolta, apenas constatando que o mundo das gravadoras não era o dele.

A história de Mora no assunto revela muito sobre como o samba funcionava na Mangueira daqueles anos. A diretoria tentava controlar o repertório. As pastoras, guardiãs do gosto popular, decidiam na prática o que pegava. Compositores como Padeirinho criavam sem pensar em mercado, e intérpretes como Jamelão gravavam o que o povo já cantava — às vezes sem os trâmites que a indústria exigia.

Padeirinho não tinha complexo de genialidade. Sabia que na Ala dos Compositores conviviam baluartes como Cartola, Alfredo Português, Geraldo da Pedra, Zé Ramos. Ele mesmo havia relutado em entrar na ala, achando que não estava à altura. Mas a irmã de Geraldo da Pedra gostou dele, insistiu, e Padeirinho fez o teste. Passou. O presidente era Cartola. A partir dali, virou compositor oficial da verde-rosa.

Mora no assunto não foi o único samba censurado que vingou. Anos antes, Padeirinho havia composto Mangueira desceu pra cantar, que a diretoria vetou por usar a melodia do hino da Marinha. Explicado o motivo, a tristeza não foi tão grande — o samba já tinha pegado na cidade. Padeirinho aprendeu cedo que o sucesso popular não pede licença pra diretoria. Quando o morro adota um samba, ele vira patrimônio coletivo, e nenhuma censura segura.

A relação informal de Padeirinho com a indústria fonográfica era comum entre os sambistas mangueirenses daquela época. Muitos compunham sem pensar em lucro, sem entender de contratos, sem brigar por direitos autorais. O samba era parte da vida, não profissão. Padeirinho trabalhava de estivador, voltava pro morro, pegava o caderno escondido no barraco e registrava as composições que vinham na calada da noite. Quando o samba ficava bom, levava pra quadra. Se as pastoras gostassem, pronto — era sucesso garantido.

Mora no assunto permaneceu no repertório popular por décadas, sobrevivendo à censura e aos trâmites burocráticos que quase deixaram Padeirinho de fora. O samba nasceu de uma encomenda boba — chatear uma namorada — e virou patrimônio da Mangueira. Porque quando o povo adota, ninguém segura.

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