O Samba à Mesa

Roda de samba no Zicartola com Nélson Cavaquinho ao violão, Zica, Zé Keti, Elton Medeiros e Cartola

A rua da Carioca, no centro do Rio, era território do samba muito antes de virar corredor de pedestres apressados. Em 1963, um sobrado começou a ser reformado para abrigar o Zicartola — restaurante onde Cartola e Zica comandariam um quilombo cultural.

O projeto era sonho antigo de Zica, quituteira refinada que havia passado vinte anos servindo gente famosa e motoristas da praça Mauá. O sonho ganhou endereço quando ela procurou o Departamento de Turismo acompanhada pelo presidente da Associação das Escolas de Samba. Apresentaram proposta ousada: transformar um casarão recém-desapropriado em sede da Associação. A autorização veio — e o casal assumiu o espaço.

Cartola divertia os amigos com sua inspiração enquanto Zica preparava seus pratos — como a muqueca de camarão que o velho Lamartine Babo saboreava satisfeito, embora bufasse atrapalhado com a pimenta.

Nélson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Delegado, Clementina de Jesus — bambas da verde-rosa frequentavam o sobrado. O restaurante virou extensão da quadra, território neutro onde sambistas de diferentes escolas conviviam. Poetas, cineastas, jornalistas, estudantes — todos atraídos pela combinação improvável de boa comida, música autêntica e conversa afiada.

O Zicartola durou pouco — fechou as portas em 1965. Mas aqueles dois anos bastaram para marcar a memória cultural do Rio.

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