Tio Jair era mineiro de Bicas, mas já torcia pela Mangueira antes de conhecer o morro. Quando pegou o trem da Estrada de Ferro Leopoldina e parou em Barão de Mauá, bastou ver uma menina saindo no infantil da verde-rosa pra vida mudar de rumo.
Ele confessava que desde os tempos de Bicas, ainda menino no interior de Minas, já acompanhava a escola. Quando começou a trabalhar na Leopoldina, pegou o trem pro Rio. “De Barão de Mauá pra Estação Primeira foi um pulo”, lembrava. Era a década de 1930, o Rio crescia, e tio Jair resolveu se estabelecer na Penha Circular. Trabalhou como ferroviário, estivador, marítimo, comerciário. Mas a paixão estava no morro.
Foi na Mangueira que conheceu dona Maria. Tio Jair se enamorou. Casaram em 1947. Três anos depois, em 1950, mudaram pro morro. O endereço era rua Francisco Ribeiro — nome do popular Chico Porrão, sócio número um da Mangueira e velho diretor de harmonia da escola. Ali, tio Jair finalmente encontrou o lugar onde passaria o resto da vida.
Ele não saía do morro da Mangueira. Frequentava as rodas de samba e o botequim de dona Efigênia e Pedro Balbino, point dos compositores da verde-rosa. Era o botequim mais asseado da Mangueira, lembrava tio Jair com orgulho. Tinha até multa para quem cuspisse no chão — na época, 200 réis. Ali se encontravam os grandes compositores do morro: Carlos Cachaça, Ataliba, Marcelino, Cartola e outros. O samba começava gostoso e as letras nasciam dos papos entre os bambas. “A Mangueira era uma maravilha”, dizia tio Jair.
Tio Jair virou diretor de patrimônio da Mangueira em 1972. Daí em diante, não tinha mais hora pra chegar nem pra sair. Era comum vê-lo, às seis da manhã, abrindo o Palácio do Samba. Sentado na sua mesa, recebia a imprensa, ouvia as reclamações do morro, dava informações para todos. Ele se movia entre as várias facções da comunidade com a sagacidade de bom político e não dispensava até rabiscar alguns “versinhos” para saudar a sua Mangueira.
— Isso aqui é uma cachaça. Acordo e venho direto para a Mangueira. Sou responsável por tudo que temos dentro da quadra. O público, quando vem ao samba, também é patrimônio da escola.
Tio Jair não cuidava apenas das cadeiras, das mesas, dos instrumentos da bateria. Cuidava das pessoas. Entendia que o patrimônio da Mangueira não era só material — era humano. Cada pessoa que passava pela quadra fazia parte daquele acervo que precisava ser zelado.
E quando chegava o Carnaval, tio Jair descia o morro com o coração pintado de verde-rosa. Dizia, com imodéstia: “Quando desço, a Mangueira é campeã.” Em 1986 por exemplo, quando a imprensa menosprezou a escola antes do desfile, tio Jair desceu com pensamento de campeão. “A Mangueira menosprezada é o diabo”, avisava. Os componentes saíam de casa nas ruelas do morro aos gritos de vitória, avisando que iam arrebentar na avenida. Não deu outra coisa. A Mangueira desfilou (Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm) com samba no pé e muita animação. “Foi a vitória mais gostosa que já assisti”, lembrava tio Jair.
Nem a morte da irmã nem a do compositor Nélson Cavaquinho acabaram com a alegria dele. Tio Jair carregava a crença de que a Mangueira era maior que qualquer perda.
Para o povo da Mangueira, tio Jair fazia sempre um pedido:
— Quero pedir a união de todo mangueirense. Se nós soubéssemos a força que teremos se nos unirmos mais… Ah! meu Deus. Ninguém iria segurar a Mangueira.
Era pedido de quem havia visto a escola crescer e sofrer. De quem chegara de trem vindo de Bicas, apaixonara-se por uma menina do infantil e nunca mais saíra do morro. Tio Jair não era mangueirense de nascimento (cria), mas virou mangueirense de alma.

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