Carlos Cachaça não era direto como Nélson Cavaquinho. Sua tristeza era de outro tipo — refinada, contida. Quem me vê sorrindo mostra a distância entre o sorriso e a dor que ninguém vê. Era essa a marca do poeta mangueirense: transformar sofrimento em poesia sem apelar.
Avesso aos microfones, costumava ser menos lembrado do que seus colegas de geração Cartola e Nélson Cavaquinho. Mas sua poesia há de sobreviver, imortalizada nos versos de Alvorada e Não quero mais amar a ninguém — obras-primas compostas com Cartola.
A parceria funcionava bem. Cartola criava melodias e também escrevia letras, mas era Cachaça quem mais assinava os versos. Melodias que pareciam inevitáveis, versos que se encaixavam como se sempre tivessem pertencido ali. O público costuma lembrar mais do rosto que aparece, da voz que canta. O letrista fica nos bastidores — mesmo quando seus versos são os que fazem o samba durar.
Carlos Cachaça representa uma tradição que está desaparecendo.

Deixe um comentário