A Mangueira de Chininha nos Anos 60

Chininha da Mangueira posando com braços erguidos e tiara branca, vestindo blusa bordada

Para quem vive o Carnaval de corpo inteiro, o calendário vira outra coisa. Setembro chega e a vida real começa — é hora de pensar na fantasia, ensaiar, sentir a quadra ganhar corpo. De setembro a março, cada dia importa. O resto do ano? Espera.

Chininha (Eli Gonçalves) sabia disso aos vinte anos. Trabalhava numa fábrica de cerâmica como auxiliar de escritório, frequentava cinema, ia nas festinhas do pessoal da Mangueira. Mas a vida de verdade mesmo era quando as semanas que precediam o Carnaval chegavam e a casa de dona Neuma, sua mãe, absorvia toda a vida do morro. Ali se traçavam os planos, ali se discutia enquanto as fantasias e as cabeleiras tomavam forma. A casa era onde tudo acontecia porque agora era Carnaval e Mangueira precisava vencer.

Dona Neuma desfilava havia vinte e cinco anos. No dia em que não podia sair, chorava. Chininha herdou isso — a devoção que não admite falha. Desde os sete anos que desfilava, nunca tinha deixado de sair. “No dia que isso acontecer nem quero ver a escola formada”, dizia ela, com a certeza de quem conhece suas prioridades. Não fazia questão de lugar. Desfilava de cabrocha, nas alas de baianas, o que importava era que Mangueira brilhasse. Houve um ano em que saiu de Rainha de Maracatu, sozinha.

Ser funcionária pública, sair com a escola. Mais nada. Ou melhor, mais uma coisa: que o Carnaval fosse mais comprido. Ficava triste quando terminava. O Carnaval mais bonito tinha sido o de 1961, quando a escola desfilou Casa grande e senzala. Naquele ano foram a Brasília. Mas ainda faltava alguma coisa — não faltava conquista nem glória, faltava tempo. Setembro demorava demais pra voltar.

E o casamento? “Carnaval não deixa”, Chininha respondia, com a honestidade de quem não vê isso como problema. “Quando começo a acertar ele chega e o problema fica adiado.” Não era lamento. Era constatação. O Carnaval reorganizava tudo. Quem entendia, entendia. Quem não entendia, não ia durar mesmo.

Em 1964, Mangueira levaria a História de um preto velho. Chininha sairia entre as cabrochas da Jupira, representando as damas da corte, de peruca verde e vestido nas cores da escola. Seu chefe na fábrica era tesoureiro da Mangueira. A vida inteira girava em torno daqueles dias. E quando o Carnaval terminava, começava a espera.

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