O Samba à Mesa

Roda de samba no Zicartola com Nélson Cavaquinho ao violão, Zica, Zé Keti, Elton Medeiros e Cartola

A rua da Carioca, no centro do Rio, era território do samba muito antes de virar corredor de pedestres apressados. Ali, entre sobrados de boemia e samba, a Mangueira conversava com o centro da cidade. Em 1963, um desses sobrados começou a ser reformado para abrigar o Zicartola — restaurante onde Cartola e Zica comandariam um quilombo cultural.

O projeto era sonho antigo de Zica, quituteira refinada que havia passado vinte anos servindo gente famosa e motoristas da praça Mauá. O sonho ganhou endereço quando Zica procurou Mário Saladani, diretor do Departamento de Turismo, acompanhada por Heitor de Carvalho, presidente da Associação das Escolas de Samba. Apresentaram proposta ousada: transformar um casarão recém-desapropriado, na rua dos Andradas, em sede da Associação. Saladani autorizou a ocupação, e o casal assumiu a guarda do espaço. Essa sede foi o embrião do futuro Zicartola, na rua da Carioca. Ali a muqueca de camarão de Zica conviveria com a inspiração de Cartola e a fome de quem chegasse, não importava quem.

O Jornal do Brasil registrou aquele momento com o frescor de quem presenciava algo inédito:

“Zicartola é o nome do restaurante que está sendo reformado num sobrado da rua da Carioca, onde Cartola poderá divertir os amigos com sua inspiração, enquanto Zica prepara seus gostosos pratos, como a muqueca de camarão, que o velho Lamartine Babo saboreava satisfeito e o francês Albert Camus, diretor de Orfeu do Carnaval, comeu deliciado, embora bufasse atrapalhado com a pimenta.”

(JB, 9 de outubro de 1963, reportagem de Mauro Ivan)

O que o jornal registrou com leveza era prenúncio do que viria. Lamartine Babo, compositor que havia levado o samba para todo o Brasil, saboreava muqueca ao lado de Albert Camus, que trouxera o Orfeu da Conceição para o cinema francês. O Zicartola apenas abria a porta: quem chegasse teria que se virar com a pimenta de Zica e o samba de Cartola.

Os “amigos” que deram sociedade a Zica não eram apenas investidores — eram gente que entendia o valor daquele projeto. Entre eles, jornalistas, intelectuais e artistas que frequentavam a boemia carioca e sabiam que Cartola estava sumido do samba havia anos, trabalhando como lavador de carros e vigia noturno. O Zicartola era estratégia de resgate: dar a Cartola um lugar onde ele pudesse viver de música sem precisar se vender. Zica comandaria o fogão com dignidade, e o samba e a Mangueira teriam palco permanente no centro da cidade.

E a escola marcava presença. Nélson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Delegado, Clementina de Jesus — bambas da verde-rosa frequentavam o sobrado. O restaurante virou extensão da quadra, território neutro onde sambistas de diferentes escolas conviviam celebrando a música que os unia. Era comum ver gente do Salgueiro, da Portela, de Vila Isabel dividindo mesa e violão, porque o Zicartola não era de escola específica — era do samba como um todo, e a Mangueira, berço de Cartola, naturalmente comandava aquele terreiro.

Mas o quilombo cultural ia além dos sambistas. Poetas como Vinicius de Moraes, cineastas, jornalistas, estudantes — todos frequentavam o sobrado da rua da Carioca atraídos pela combinação improvável de boa comida, música autêntica e conversa afiada. O Brasil vivia momento de efervescência cultural, ainda respirava os últimos suspiros de liberdade antes do endurecimento da ditadura que se instalaria em 1964. O Zicartola era espaço de resistência pelo simples ato de existir — celebrar cultura popular sem pedir licença já era ato político.

Cartola, finalmente, podia fazer o que sempre desejou — tocar violão, tomar umas e outras, comer seu franguinho com nhoque enquanto Zica brilhava no comando da cozinha. O sambista realizado, como disse o jornal, encontrou no Zicartola não apenas sustento financeiro, mas dignidade artística. Ali, ele não era o compositor esquecido que lavava carro na Zona Sul — era Cartola, mestre do samba, cercado de admiradores que vinham de longe só para ouvi-lo dedilhar o violão e cantar as músicas que faziam a Mangueira inteira chorar de emoção.

O Zicartola durou pouco — fechou as portas em 1965, vítima de dificuldades financeiras e do clima político que se fechava sobre o país. Mas aqueles dois anos bastaram para marcar a memória cultural do Rio. O Zicartola foi mais que ponto de encontro — foi afirmação de dignidade: Cartola vivendo de sua arte, Zica comandando seu próprio negócio, a Mangueira celebrada no centro com a mesma reverência do morro.

Hoje, quando se fala em Zicartola, fala-se daquele momento breve em que Cartola, Zica e a Mangueira provaram que o samba merecia lugar à mesa — e quem teve coragem de sentar nunca esqueceu o tempero.

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