Treze anos se passaram desde aquele Carnaval de 1965, quando Nininha quase ficou de fora por falta de dinheiro para a fantasia. Nesse tempo, a Mangueira mudou de enredos, presidentes e gerações de sambistas, mas ela seguiu firme, desfilando ano após ano e mantendo viva sua presença na escola. E foi já no Carnaval de 1978 que ela quase não acreditou quando recebeu a notícia: tinha sido escolhida como grande destaque feminino do Estandarte de Ouro.
Naquele ano, a Mangueira apresentou Dos carroceiros do imperador ao Palácio do Samba, celebrando os 50 anos da escola. Nininha vestia fantasia em tons degradê, inspirada nas damas dos antigos ranchos que abriram caminho para as escolas de samba. A fantasia representava a porta-estandarte do rancho Príncipe das Matas — um dos ranchos que ajudaram a plantar as sementes da Estação Primeira, e que agora revivia no corpo e no passo de Nininha.
Depois de tantas décadas na avenida, o reconhecimento veio — e ela mesma dizia que já nem lembrava quantas promessas tinha feito. Agradecia pela chuva mansa que refrescou o ar e aliviou o calor na hora do desfile; agradecia, também, por finalmente sentir, nos olhos do povo, a admiração que sempre sonhou.
Para Nininha, receber o Estandarte de Ouro era mais que um troféu: era a prova de que a dedicação de uma vida inteira ao samba podia, enfim, ser vista em vida. Para quem vinha do povo, como ela, ter a própria história chamada ao palco.
Não era qualquer homenagem. Criado pelo jornal O Globo em 1972, o Estandarte de Ouro logo virou referência no mundo do samba. O prêmio nasceu num momento em que a imprensa começava a se aproximar mais formalmente do Carnaval, criando rankings, críticas e colunas especializadas. O Estandarte se destacou porque não premiava apenas a melhor escola no resultado oficial, mas também categorias como destaques individuais, bateria e samba-enredo. Tornou-se, rapidamente, uma distinção cobiçada por sambistas, justamente por valorizar talentos que, muitas vezes, passavam despercebidos nos julgamentos oficiais.
Na quadra, comemorando, sorria, chorava. Para acalmar o coração acelerado, buscou refúgio nos sambas antigos — aqueles que já defendera com corpo e alma. Quando enfim conseguiu falar, confessou que tinha medo de morrer de tanto contentamento. Disse que, quando esse dia chegasse, queria que Zica e Cartola velassem seu corpo na quadra, com o surdo marcando o compasso.
Foi nesse instante que Delegado apareceu. O abraço foi longo, firme. E, como nos tempos de glória, começaram a cantar: “Estamos aí, estamos aí. Mangueira tem fortes raízes e não pode cair…”. Ali, um entendia o que significava para o outro. Tinham dividido a avenida até 1953, e ele nunca escondeu: foi ela, sua porta-bandeira mais vitoriosa, quem mais títulos lhe deu.
Ainda incrédula com o prêmio e com os olhos marejados, repetia: “Como foi que me viram? Como foi que me escolheram?”. Talvez porque, mais que beleza, havia entrega. Nininha sambava livre, mas nunca distraída. Vigiava a bandeira, o baliza… e mantinha sempre o sorriso. Era seu jeito de agradecer ao público. Muita gente se aproximou para elogiar e, vaidosa com razão, dizia que a roupa dera trabalho — mas valera cada ponto, cada noite acordada.
Aquele ano, 1978, foi especial. Não era só o jubileu de ouro da Mangueira que se comemorava — era a trajetória de uma mulher que começou a desfilar ainda de chupeta, nos braços da mãe, e que agora via o samba devolver, em forma de troféu e aplausos, o que ela sempre dera de graça: a alegria dela no samba. O Estandarte de Ouro não inventou Nininha — apenas confirmou o que o morro sempre soube.
Nesse Carnaval, a escola celebrava as raízes que a fizeram forte. E Nininha, filha do morro, herdeira de Maria Coador e das tradições de jongo e caxambu, era a prova viva de que essas raízes nunca se perderam. Ela não era apenas passista — era memória viva da escola.
Depois daquele dia na quadra, com o troféu nas mãos e Delegado ao lado, Nininha seguiu sendo quem sempre foi: a mulher que gritava “Xoxoba!” e subia o morro sem pressa, pondo água no arroz antes da roda da velha guarda. O reconhecimento não mudou isso. Apenas tornou visível, para quem ainda não tinha visto, o que a Mangueira sempre soube: Nininha era, e sempre seria, uma de suas maiores.

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