Recalcitrante na Vaselina

Retrato de Zé-com-Fome da Mangueira sorrindo com terno branco de lapela dupla, gravata escura e relógio de pulso, mãos entrelaçadas

Zé-com-Fome era sambista fora de série. Ninguém questionava sua masculinidade, ninguém duvidava do seu respeito dentro da Mangueira. Mas lá pelo comecinho dos anos 1930, ele cismou de esticar o cabelo, dar um “adianto no pêlo”, caprichar na brilhantina para fazer bonito com as cabrochas.

Chico Porrão não gostou.

Chico falava grosso, metia bronca a troco de nada, usava um anel imenso na mão direita só para o cascudo doer mais. A molecada o temia. E ele tinha um código: a Mangueira era lugar de macho, gente séria e de respeito. Aquele cabelo esticado o incomodava — e levou-o a advertir o companheiro:

— Tá querendo se mostrar, meu trato? Fica na tua. Olha o exemplo que tu tá dando para os mais novos. Negócio seguinte: ou tu pára com essa chinfra, corta essa onda de esticar o cabelo, ou te ponho daqui pra fora.

O Zé não cedeu. Foi recalcitrante na vaselina.

Aí não teve jeito. Zé-com-Fome teve de rapar fora. Por uns tempos, a Mangueira ficou sem um dos seus jovens artistas.

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