O Treme-Terra da Mangueira

China de Mangueira, o Rei do Surdo, com boina e camisa clara tocando o instrumento com uma baqueta elevada

China era do tempo em que se esquentava o surdo antes de tocar. O couro — de boi nos instrumentos pesados, de cabrito ou de gato nos mais leves — precisava de calor para esticar e afinar. Não havia tarraxa, não havia náilon. Havia fogo e o ouvido treinado de quem sabia quando o instrumento estava pronto.

China começou a desfilar na bateria da Estação Primeira em 1945, tocando surdo de marcação. Era o sucessor de Lúcio Pato, primeiro grande surdo da escola, e antecessor de Zé Crioulinho. Por mais de trinta anos desfilou na verde-rosa — na década de 1960 mudou-se para Deodoro, mas não abandonou a escola.

O instrumento que China tocava não era qualquer surdo. Era o 105, o treme-terra — barrica enorme, feita sob encomenda, que na virada da primeira para a segunda parte dobrava o compasso. Era a tal batida diferente que distinguia a Mangueira das outras escolas.

No final dos anos 1950, o progresso chegou à bateria. As fábricas passaram a oferecer instrumentos com tarraxa. No início dos anos 1960, o couro para bateria já era material em extinção. O náilon chegou para ficar. China viveu essa transição por dentro.

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