Só elas poderiam explicar — mas rosas não falam.
A frase saiu assim, natural, numa manhã qualquer em casa. Zica tinha perguntado por que aquelas roseiras estavam tão carregadas de flores, tantas e tão bonitas que causavam espanto. Cartola respondeu sem pensar muito. Disse que só as próprias rosas saberiam dizer, mas que rosas não falam. E pronto. A conversa poderia ter ficado por ali, mais uma troca corriqueira entre o casal, esquecida antes do almoço.
Mas a frase ficou martelando na cabeça dele. Não saiu mais. Cartola pegou o violão, sentou na poltrona e compôs o samba inteiro de uma vez. Poucos dias antes de completar 67 anos, finalizou a canção e declarou que As rosas não falam foi o presente que se deu naquele aniversário. O maior sucesso de sua carreira nasceu assim — de uma resposta dita em casa, diante de um jardim florido, sem nenhuma intenção de virar música.
A história dessas roseiras, porém, tinha começado bem antes, num desencontro que durou horas. Nuno Veloso, que se tornaria parceiro de Cartola em vários sambas, tinha encontrado Baden Powell na Alemanha. Dois brasileiros em solo europeu, longe de casa, conversando sobre música. Combinaram que, de volta ao Rio, Nuno iria visitá-lo. E foi. Passou na casa de Cartola e Zica para levá-los junto no passeio até a Barra. Partiram os três.
O endereço de Baden, porém, revelou-se difícil de achar. Rodaram durante horas, de um lado para o outro, sem sucesso. A Barra ainda não era o bairro de hoje — era distante, pouco ocupada, cheia de caminhos confusos. Exaustos, decidiram voltar. No caminho de volta, ao passarem por uma floricultura, Nuno tentou amenizar a frustração do dia perdido. Comprou algumas mudas de roseira para Zica. Ela, encantada com o presente, plantou as roseiras no jardim assim que chegaram em casa.
O tempo passou. Até que, numa manhã, o casal se surpreendeu. As roseiras estavam tomadas de flores. Foi quando Zica fez a pergunta. E Cartola deu a resposta que não conseguiria mais esquecer.
Ele tinha 67 anos. Décadas de samba nas costas, dezenas de composições gravadas. E foi naquele momento, diante daquelas roseiras que tinham nascido de um dia perdido procurando um violonista na Barra, que ele compôs o samba que o mundo inteiro conheceria. Não foi na juventude fértil do morro. Foi ali, em casa, na maturidade plena, quando uma frase simples dita para a esposa se transformou em canção.
As rosas não falam virou sucesso imediato. A melodia dolente, a letra enxuta. O samba carregava tudo o que Cartola sabia sobre silêncio — e nasceu do acaso.
As roseiras continuaram lá, no jardim. E a frase que Cartola disse naquela manhã ganhou vida própria, repetida em gravações, shows, vozes pelo Brasil inteiro. O presente de aniversário que ele se deu aos 67 anos acabou sendo presente para todo mundo que um dia ouviu aquele samba e reconheceu nele alguma verdade.

Deixe um comentário