O Bloco que Ensinava Carnaval Antigo

Babaú da Mangueira cantando ao microfone com chapéu e óculos durante apresentação na TV Brasil

Aos 79 anos, cego por causa de glaucoma e recuperando-se de uma operação na próstata, Babaú resolveu fundar um bloco em Vila Valqueire. Não era saudade — era missão: mostrar aos mais novos como era o Carnaval antes de virar competição, quando compositor mandava mais que carnavalesco. O Unidos de Vila Valqueire nasceu em 1993 comandado por quem viveu o Carnaval carioca desde os anos 1930.

Babaú morava em Vila Valqueire fazia 35 anos. Era figura conhecida no bairro. Quando anunciou que ia fundar um bloco, todo mundo quis saber se seria verde-rosa. Mas Babaú escolheu verde e branco — em homenagem à União de Jacarepaguá, que emprestou a quadra para os primeiros ensaios, e ao Império Serrano, escola que ele tinha admiração.

— Se eu escolhesse verde e rosa todos diriam que eu estava puxando a brasa para a minha Mangueira. Além do mais, gosto muito do Império Serrano.

O objetivo do Unidos de Vila Valqueire era claro: ensinar aos mais novos como eram os desfiles antigos. Babaú explicava com paciência de quem viu o Carnaval se transformar ao longo de sete décadas:

— Não havia carnavalesco ou enredo, já que cada compositor fazia um samba sobre um assunto e na hora escolhíamos o melhor.

Era esse o Carnaval que Babaú queria resgatar. O desfile seria como antigamente: samba cadenciado, alas separadas para homens e mulheres, enredo patriótico como mandava a tradição.

Para 1994, Babaú já tinha tudo pronto: enredo Estrutura nacional, em homenagem à engenharia e à arquitetura brasileiras. Era tema patriótico, como os que se faziam antigamente. O samba estava composto pelo próprio Babaú, falando da estreia do bloco. As alas estavam organizadas. Só faltava a saúde cooperar.

Mas 1993 não foi ano de desfilar. Babaú, que deveria passar o Carnaval recuperando-se da operação na próstata, viu seu bloco estrear de forma diferente: recebendo outras agremiações na praça Saiqui. Durante três noites — sábado, domingo e terça-feira —, o Unidos de Vila Valqueire seria anfitrião, premiando os três melhores blocos com os troféus Dr. Rivadávia Maia, Dona Tita e Ivan Bacana. Não era o desfile sonhado, mas era começo.

Além disso, o bloco não havia sido inscrito na Federação dos Blocos a tempo de entrar na programação oficial da Riotur. Atrasos burocráticos, questões de saúde. Mas Babaú não desanimava. O enredo e o samba programados para o primeiro desfile oficial foram guardados para 1994.

A madrinha era Beth Carvalho, mangueirense de coração que topou apadrinhar o bloco verde e branco de Babaú. Ela fez show beneficente na quadra da União de Jacarepaguá para ajudar o Unidos de Vila Valqueire a nascer. Era gesto de quem entendia que o samba era maior que as cores de uma escola.

Babaú não queria competir com ninguém nem provar que o Carnaval antigo era melhor. Queria apenas mostrar que havia outro jeito de fazer a festa. Um jeito onde compositor mandava, comunidade escolhia, e todos saíam pra rua sem outro compromisso além de sambar.

Aos 79 anos, cego e recém-operado, Babaú ainda tinha fôlego pra fundar bloco — porque ensinar era obrigação. E o Unidos de Vila Valqueire, verde e branco, nascido nas mãos de um mangueirense que gostava do Império Serrano, mostrava que Babaú continuava servindo ao samba.

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