Às sete da manhã, Neide estava no fogão. No Bar da Neide, no CADEG, logo atrás do morro da Mangueira, ela chegava cedo e já começava a dar ordens ou a pegar duro na cozinha — porque quando a sogra não vinha ajudar, ela fazia tudo sozinha. Essa roda-viva só tinha pausa em quatro dias do ano.
Nesses quatro dias, Neide Gomes Santana tirava o avental e vestia a verde-rosa da Estação Primeira. O estandarte da Mangueira entrava na avenida pelas mãos dela.
— É a melhor coisa do mundo. Quando a gente entra na avenida, dá uma coisa aqui dentro, uma emoção que não é normal. Pra não sair com a escola, eu fico em casa. Não serve passista, pastora, bateria, nada. Tem de ser mesmo é de porta-estandarte.
Neide nasceu no morro. Cresceu com o samba no sangue e aprendeu pelo caminho os ofícios que a vida foi pedindo — cabeleireira, manicure, costureira, fiandeira, auxiliar de laboratório. O samba falou sempre mais alto — mais alto até do que o marido, corretor de imóveis.
A filha Sílvia, de quatro anos, ainda não saía na escola. A sogra era contra. Mas Neide já sabia o que queria.
— Meu sonho é ver minha filha entrando também um dia na avenida. Meu outro filho — o Anderson — já sai de mascote na Ala dos Aliados. O samba não impede ninguém de ser gente na vida. Pelo contrário, até ajuda, porque a vida fica mais alegre. Esse negócio de só trabalhar o dia inteiro deixa a gente meio rabugenta.

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