Cria do Morro, Rainha do Samba

Evelyn Bastos com fantasia cravejada de cristais e punho erguido em pose altiva no morro de Mangueira, com as casas da comunidade ao fundo

São menos de cinco minutos de caminhada da quadra da Mangueira até a casa de Dona Nilsa, numa viela do Buraco Quente. Tempo mais que suficiente para Evelyn Bastos receber inúmeras saudações no caminho.

— É minha sobrinha — uma senhora gritou da quitanda.

Evelyn sorriu. E explicou:

— Todo mundo na Mangueira é meio parente.

Não é força de expressão. É a verdade do morro.

Dona Nilsa criou a neta à base de muito angu — e de muita Mangueira. Evelyn aprendeu a sambar aos quatro anos. Aos 11 já era passista. O samba não foi escolha: foi herança, foi quintal, foi o cheiro da quadra na infância. Na sala da casa da avó — pintada de verde e rosa no carnaval —, Evelyn recebia algumas de suas 21 alunas de samba. O ciclo se fechava ali: a menina que o morro ensinou, ensinando outras meninas do morro.

— Hoje, além de ser uma ótima rainha de bateria, minha neta é uma das melhores professoras de samba — conta Dona Nilsa, com o orgulho de quem plantou e viu crescer.

Filha de Valéria Bastos — que ocupou o posto à frente dos ritmistas da escola na década de 1980 — e de Marcelo André da Silva, pintor de carros, Evelyn é cria do morro. Alçada à posição de rainha de bateria em 2014, chegou ao posto como chegam as crias do morro — pelo samba, não pelo cheque.

— A partir do momento que chega uma subcelebridade disposta a pagar altas cifras pelo posto, o sonho dessas meninas morre. Posso falar com propriedade porque isso aconteceu comigo. Fiquei paralisada e profundamente decepcionada quando famosas ocuparam a posição. Com a minha coroação, voltamos a plantar a semente no coração da garotada. Se eu consegui, elas também podem.

Quando foi convidada para ser rainha, os dirigentes disseram que precisavam resgatar as raízes da Mangueira. Evelyn decidiu que não seria apenas uma mulher sambando na frente da bateria — usaria o espaço para falar pelas mulheres negras da periferia, pelas que o mundo costuma ignorar, pelas que crescem no morro sem ver ninguém parecido com elas ocupando aquele lugar.

Para ela, favelado não é ofensa. É identidade.

— Ser favelado é maior do que simplesmente nascer no morro. Significa resiliência e resistência. Temos que ser fortes para viver. Posso até estar sozinha na Sapucaí, mas o lugar não é só meu.

Rainha de bateria. Professora de samba. Filha do morro. Evelyn Bastos é tudo isso — cria da Mangueira, no sentido mais completo da palavra.

One response to “Cria do Morro, Rainha do Samba”

  1. Avatar de Karine Crespo
    Karine Crespo

    Ninguém acima dela! Rainha completa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *