Cartola e o Primeiro Samba

Retrato de Cartola (Angenor de Oliveira) da Mangueira usando óculos escuros e camisa clara de manga curta, olhando levemente para o lado

O primeiro samba de Cartola nasceu de um aborrecimento. Ele havia saído do bloco da Tia Tomásia e no caminho de volta para os Arengueiros a letra veio: “Chega de demanda, chega/ Com esse time temos que ganhar/ Somos da Estação Primeira/ Salve o morro de Mangueira.”

O samba se chamaria mais tarde Chega de Demanda.

Angenor de Oliveira havia chegado à Mangueira com 11 anos para morar e começar a vida no morro. Moleque vivo, fez logo amizade com a rapaziada. Os melhores amigos daquela época eram Moreira, Nélson Cuica, Chico Porrão, Marcelino e Carlos Cachaça — esse, mais tarde, se tornaria seu parente e parceiro.

Cartola nunca foi de muito estudar. O pai era um excelente tocador de violão e ele aprendeu a pinicar algumas coisas sozinho, quando o velho saía para o trabalho e o violão ficava dando sopa.

No morro havia três blocos: o do Júlio, o do Mestre Candinho e o da Tia Tomásia. Havia ainda os Arengueiros — integrados pela turma de choque do morro, que topava tudo, inclusive armava tremendas confusões que acabavam em pancadaria. Cartola pertencia à turma da pesada.

Foi convidado — junto com elementos tidos como bonzinhos e escolhidos a dedo — para integrar o bloco da Tia Tomásia. A coisa não deu lá muito certo. Cartola se aborreceu com um “não-sei-o-que”, talvez mesmo por causa de alguma mulata. Os convidados se retiraram do bloco. No caminho de volta para os Arengueiros, nasceu Chega de Demanda e também a ideia de unir todos os blocos: a Estação Primeira.