A Vovó de Todo Mundo

Vó Lucíola, neta de escravos e pioneira da Mangueira, sentada em uma cadeira de madeira fumando cachimbo com fumaça subindo, criança ao fundo

No dia 19 de setembro de 2007, Vó Lucíola completou 107 anos com feijoada. Poucos dias depois, em São Cosme e Damião, a casa era um entra e sai de crianças com saquinhos de doce nas mãos. Uma das 69 netas chegou com um saquinho para a avó. A bisneta Karla, dez anos, entrou logo atrás e tomou o saquinho. A casa inteira chamou sua atenção. Vó Lucíola não ligou.

— Eu não gosto de doce. Só de suspiro. Sou mais de salgado.

Lucíola Ribeiro de Jesus morou no morro da Mangueira desde os 11 meses de idade. Não saiu mais. Criou 14 filhos, viu nascer 69 netos, 119 bisnetos e 38 tataranetos — a maioria mora no morro até hoje, bem como passavam pela casa dela para pedir bênção. E ainda tinha os que não eram de sangue, mas se chegavam assim mesmo.

— Eu virei vó de todo mundo aqui. Até quem não é parente aparece e me chama de vovó.

Isso é Mangueira. O morro sempre funcionou assim: o laço que conta não é necessariamente o de família. É o de convivência, de proximidade, de porta aberta. Vó Lucíola era a versão mais radical desse princípio — uma mulher que o morro inteiro havia adotado como avó, e que aceitava esse papel sem cerimônia.

Quem ia até ela em busca do segredo da longevidade encontrava dois vícios confessos: o cachimbo, que ela mesma preparava e acendia, e a caneca de vinho tinto que tomava durante as refeições. Ainda acrescentava que se alimentava de carne de porco desde sempre — ela e todos os filhos — e que chegou a ter um chiqueiro nos fundos de casa.

Mas Vó Lucíola não era ingênua sobre o mistério. Sabia que não havia fórmula.

— De todos, só ficou eu. Minhas amigas mais velhas têm cerca de 80 anos. Isso não tem receita, é a vontade de Deus.

Essa frase vale um tratado de filosofia popular. Ela não estava se gabando. Estava reconhecendo algo que a ciência ainda patina para explicar: que longevidade extrema tem um componente que escapa ao controle. Cachimbo, vinho, carne de porco — talvez nada disso importe tanto quanto aquilo que não se mede: a sensação de ser necessária, o movimento constante de gente na casa, as 69 netas, a bisneta Karla roubando o saquinho de doce.

Vó Lucíola se foi em 2012. Sei que em 2007 ela estava ali, inteira, com o cachimbo na mão e a opinião formada. O morro da Mangueira produziu muita coisa extraordinária ao longo de cem anos. Mas também produziu isso: uma mulher de 107 anos sentada na poltrona, convicta de que carne de porco não faz mal a ninguém e de que o resto é com Deus.

Vó Lucíola era Mangueira também. Do tipo que não aparece nas crônicas do Carnaval, mas que estava lá — no quintal, na bênção.

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