A Invenção que Virou Tradição

Massu e Raimunda, ambos de roupa branca, segurando a bandeira do então Bloco Estação Primeira com outras pessoas ao redor durante a inauguração da Escola Municipal Humberto de Campos

Massu viu os ranchos desfilarem. O Ameno Resedá, o Flor do Abacate, o Mimosas Cravinas, o Caprichosos da Estopa. Viu os cortejos luxuosos, os enredos vistosos, as evoluções coreográficas. E viu, principalmente, uma figura que chamava atenção: o baliza, com seus arabescos ao lado da porta-estandarte. Hilário, Getúlio Marinho, João Paiva, Bull-Dog, Camarão — todos eles faziam aquelas filigranas cheias de elegância. Massu olhou aquilo e pensou: isso precisa estar no samba também.

Foi dele a ideia. Marcelino José Claudino, o Massu, sambista e batuqueiro bastante conhecido, levou o mestre-sala (baliza) para a Estação Primeira. Foi o primeiro. E todas as outras escolas copiaram.

Antes disso, Massu já era figura conhecida nas rodas de samba. Nos festejos dos domingos de outubro, na Penha, ele estava lá no arraial entoando raiado, partido alto, mostrando suas aptidões no miudinho e nas letras quando alguém o tirava pro centro da roda. No samba pesado também, na batucada em cima da balança atrás da Escola Benjamin Constant, na praça Onze, onde se pegava duro num hábil rapa, numa banda pra derrubar, o Massu entrava. Era bom de perna, nunca ia ao estrado.

Quando a turma da Mangueira fundou o bloco dos Arengueiros, liderada por Zé Espinguela, Chico Porrão, Saturnino, Cartola e a velha-guarda, Massu estava no brinquedo. Depois, com a evolução do bloco que virou escola de samba Estação Primeira, a partir de 1929, ele vinha com a raça mostrar-se na praça Onze. A princípio não havia competição estabelecida. Anos mais tarde, de 1932 em diante, quando a escola passou a disputar os canecos e porfias por campeonatos, Marcelino José Claudino era figura de destaque. Era o baliza, o mestre-sala garboso ao lado da porta-bandeira, a cabrocha Raimunda.

A transformação foi completa. O mesmo Massu que era dextro no rabo de arraia, na banda, que pegava duro na batucada pesada, aparecia agora esbanjando elegância. Trajado numa pinta-lorde à Luís XV, cabeleira branca, bonito leque na mão direita. Era um galã conduzindo a porta-bandeira, com figurações e filigranas coreográficas. O batuqueiro virou bailarino.

Ele tinha entendido uma coisa. Os blocos, as embaixadas e as turmas do samba tinham, na formação primitiva, apenas a bateria com tamborins, pandeiros, chocalhos e cuícas, dando e sustentando o ritmo do samba entoado. À frente, com suas saias caprichosamente bordadas, seus panos no ombro, a sandália na ponta dos pés, vinham as baianas caprichando na cadência do reboleio. Era um conjunto de samba autêntico, despido de concepção fantasiosa, de artifícios alegóricos ou ornamentais. O samba pedia ritmo e ginga, e isso os blocos procuravam ter o melhor, o mais bem caprichado.

Mas as escolas de samba estavam crescendo. Não queriam ter apenas a denominação didática. Na substituição que faziam dos tradicionais ranchos como atração do Carnaval, procuravam igualar-se a eles. Precisavam de enredos vistosos, de mais elaboração. E Massu, que tinha visto os ranchos com seus mestres-salas fazendo evoluções cheias de arabescos coreográficos, achou que devia levar essas figuras para os conjuntos de samba.

Foi o que fez. A partir dos anos 30, não era só a Mangueira que desfilava com Massu e Raimunda formando um par garboso. Todas as escolas imitaram. A inovação que ele lançara na Estação Primeira foi logo seguida pelas demais. O que nasceu verde-rosa ganhou o carnaval inteiro.

Hoje, um time de mestres-salas está aí, exibindo-se com perícia. Todos eles arrancam aplausos das arquibancadas quando desfilam, cada qual com mais apuro, na passarela. A inovação do sambista, do batuqueiro, do partideiro Massu, que surgiu na escola verde-rosa da Mangueira, virou ponto de realce nos cortejos. É sempre no mestre-sala e na sua companheira, carregando o “pano”, que se concentra a atenção de quem assiste aos desfiles.

Massu não inventou o mestre-sala — os ranchos já tinham isso havia tempo. Mas foi ele quem trouxe a figura pro universo das escolas. Foi o primeiro. E a Mangueira, mais uma vez, abriu caminho que todo mundo depois seguiu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *