Hélio Turco sabia que o samba-enredo da Mangueira para o carnaval de 1965 era bom. Mas saber não é o mesmo que ouvir a avenida cantar. Essa diferença só se resolveu num domingo de fevereiro, na avenida Presidente Vargas, com a escola na rua.
Dalva, sua mulher, também teria a sua noite. Não como compositora, não como passista. Como destaque — exibindo uma das fantasias mais caras daquele carnaval. A ironia é que a fantasia não era para ela. Dalva era costureira, e tinha começado a fazê-la para uma freguesia que depois desistiu de desfilar. De repente, o vestido ficou. E Dalva, com a simplicidade de quem nunca pensou em ocupar aquele lugar, se viu dona do que sempre fez para os outros.
O casal gastou muito naquela noite — e Dalva havia perdido a conta de quanto. Mas a lógica do carnaval não é a lógica do orçamento. É a lógica de quem sabe exatamente o que está pagando e paga assim mesmo.
Na avenida, Hélio Turco ouviu a multidão cantando o que ele escreveu. Dalva recebeu os aplausos de uma plateia que não sabia o nome dela — e talvez nunca viesse a saber. Não importava. Naquela noite, cada um teve o que veio buscar.

Deixe um comentário