Neuma tinha dez crianças em casa. Dormiam lá, comiam lá, tomavam banho lá. Dois deles — Milton e Dircinho — iam à escola todo dia e voltavam sem aprender nada. A professora ensinava, a lição chegava em casa, e nada. Neuma ficava doente.
Tentou carinho. “Meus filhos, meus queridos” — não adiantou. Tentou autoridade. “Vai sair ou não vai?” — funcionou melhor.
Um dia, pegou um papel e escreveu uma lista enorme de palavrões. Chamou os pais das crianças para testemunhar. Sentou Milton e Dircinho à mesa e disse: vocês vão ler tudinho.
E eles leram.
Neuma contava essa história sem qualquer sinal de arrependimento. “Enquanto estava aquele carinho, não aprendiam, não.”
Criou muita gente assim: no limite entre o afeto e o palavrão. A Mangueira que ela governava era isso — uma casa grande, barulhenta.

Deixe um comentário