Em 1964, Cartola se internou na Policlínica-Geral do Rio de Janeiro para uma operação plástica no nariz. Não era vaidade — ele mesmo fazia questão de deixar claro. Era necessidade. Havia três anos adiava o procedimento, empurrava com a barriga, encontrava razão pra não ir. A respiração já estava difícil quando não teve mais como fugir.
O mesmo homem que fazia plateias inteiras cantarem junto confessava, sem cerimônia, que a timidez tomava conta quando se via diante de um médico.
— Não sei o que fazer quando tiver de enfrentar a “faca” do doutor.
Os médicos o conheciam de nome. Revelaram que eram fãs. E Cartola, que chegara intimidado, saiu com uma certeza: a palavra deles era ordem.
— Vou fazer plástica por necessidade. Quando fui consultar-me na Policlínica, sabia que já estava “condenado” a isso.
A cirurgia estava marcada para uma segunda-feira. Cartola se internara no sábado e esperava. Nesse meio-tempo, já pensava em como retribuir a bondade com que estava sendo tratado. Não tinha como pagar — mas tinha o que sempre teve.
— Creio que a bondade com que os médicos vêm-me tratando, só poderei pagar com um samba que lhes dedicarei.

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