A moçada da Mangueira pisou no transatlântico Uruguai e logo começou a pilheriar.
— Já pisou em tapete assim na vida? Deixou a lama no morro?
A tripulação não falava português. A moçada não entendia a língua deles. Desse modo, uns podiam xingar os outros à vontade. As despesas todas foram por conta da casa. As gargalhadas, por conta da Mangueira.
Cartola estava tenso. Sentia-se responsável pelo comportamento de todo o bando e tentava manter a ordem. Quando o maestro entrou no salão, Cartola avisou:
— Atenção. Quando o maestro fizer isso, vocês façam aquilo.
A falecida Nezinha não se intimidou.
— Que nada, Cartola. O maestro é que tem que perseguir a gente.
A noite no navio havia sido em agosto de 1940. Dona Neuma, já com 65 anos, repetia os versos de Quem me vê sorrir em sua casa ao lado da quadra da escola. Ela era uma das raras sobreviventes daquela gravação histórica com o maestro Leopold Stokowski. Dos que estavam na bateria, todos haviam morrido. Das pastoras restavam vivas apenas três ou quatro: dona Neuma e sua irmã Cecéia, Creuza, que havia mudado do morro, e as irmãs Ornélia e Nadir — essa última sem paradeiro conhecido.
Dona Neuma lembrava mais do clima do que dos detalhes. Da felicidade de pisar pela primeira vez num navio. Do maestro de longa cabeleira loura — russo ou alemão para ela, inglês de verdade.
Aluízio Dias, 76 anos, recém-saído de um enfarte que o deixara 12 dias hospitalizado, lembrava também que ao chegar ao Brasil, Stokowski havia procurado Villa-Lobos porque queria gravar música popular brasileira.
— O maestro Villa-Lobos se dava muito com o Cartola. Veio aqui no morro e combinou com ele os sambas que seriam gravados. Foram quatro. Dois em parceria comigo — Meu amor e Primeiro amor —, mais Tristeza e Quem me vê sorrir.
Naquela noite, nem o ar turrão de Cartola, nem o ambiente estranho do navio fizeram a moçada se intimidar. Como recordava dona Neuma, acostumada a ser regida pelo ritmo da bateria.

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