Era 1963. Jamelão ia para o morro da Mangueira quando começou a chover. Buscou abrigo na cobertura de um ponto de ônibus. Havia um homem de costas, fazendo xixi num barranco. Quando terminou, virou-se, viu Jamelão e gritou:
— Jamelaaaaão!!
E veio em sua direção, com a mão aberta.
— Sai pra lá, você estava pegando no seu e agora quer me dar a mão!
Anos depois, num bar, Jamelão estava no palco quando um homem pegou na barra da sua calça e puxou, com relativa força. Jamelão olhou, olhou — mas não teve a provável reação zangada. Inclinou o corpo e pegou o bilhete. Não satisfeito, o homem burlou a vigilância dos seguranças, subiu no palco e estendeu a mão.
Jamelão olhou, olhou e, finalmente, estendeu a mão para o aperto pedido.
O sujeito desceu. Jamelão prosseguiu cantando: “maestro, músicos, cantores, gente de todas as cores, façam um favor pra mim…” Ao final, interrompeu os aplausos:
— Há pouco eu quase não dei a mão para aquele homem que agora está sentado lá na frente. Mas logo imaginei que no dia seguinte os jornais diriam: “o Jamelão é antipático”, “o Jamelão é mal educado”. Além disso essa música é tão bonita que não valia a pena interrompê-la. Por isso retribuí o cumprimento. Mas agora eu vou contar por que não gosto de dar a mão para ninguém que não conheço.
E contou a história de 1963. O homem de costas no barranco. A chuva. A mão estendida.
— De repente, aquele homem tomou umas cervejas a mais, foi ao banheiro, não lavou as mãos, saiu, ouviu a música e perguntou quem estava cantando. Aí veio até o palco, subiu, e tive de pegar no dele por tabela. Por isso não pego na mão de ninguém!
A plateia o ovacionou.

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