Nélson Sargento aprendeu a pintar paredes com o padrasto, Alfredo Português, ainda jovem. Era trabalho, não arte. Massa, tinta, pincel, parede — o ofício prático de quem precisa ganhar a vida. Ninguém ali estava pensando em quadros.
Em 1973, durante um intervalo de serviço, sobrou um pedaço de madeira. Sobrou massa. Pegou a massa, passou no caixote. Quando secou, olhou e pensou: vou pintar. E pintou.
— Aconteceu por acaso. Eu tinha um pedaço de madeira, estava apanhando um resto de massa que caía. Eu não sei por que fiquei com raiva e comecei a passar aquela massa em cima do caixote. Quando secou, eu tive um desejo e pensei: vou pintar. E pintei uma pintura qualquer.
Assim nasceu o pintor Nélson Sargento.
Mas quem conhece a trajetória dele sabe que não foi surpresa nenhuma. Nélson Sargento era desse tipo de homem que não conseguia tocar numa coisa sem inventar. Compositor desde sempre, sambista de lei, mais tarde ator e escritor — cada vez que a vida colocava uma ferramenta na mão dele, ele inventava um uso que ninguém tinha pensado.
A pintura não foi um desvio. Foi mais uma linguagem. Os temas que escolheu dizem tudo: o morro, o barraco, as figuras do samba. O mesmo universo que habitava as letras que escrevia, agora ganhando forma e cor numa tela.
— Eu parti para essa linha.
A linha da vida de tantos brasileiros que, como ele, têm de fazer de tudo para sobreviver. Só que Nélson não conseguia sobreviver sem inventar.
O reconhecimento veio depressa. Estava trabalhando perto da casa de Sérgio Cabral e, de vez em quando, ia, nas palavras dele, “filar um almoço, fantasiado de pintor”. Mostrou o que havia feito ao amigo.
— Seu Sérgio, fiz isso aí.
Cabral estimulou: faz mais, que está bom. Quando Nélson reuniu seis quadros, fez uma mostra durante o aniversário do crítico musical. Vendeu tudo. O primeiro a comprar foi Paulinho da Viola.
Num final de tarde de céu azul, o alto do morro da Mangueira abriga um amontoado de casinhas coloridas. É um dos mundos de Nélson Sargento — o mesmo morro que ele pintou em palavras por décadas, agora pintado em tela.

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