Carlos Cachaça não era direto como Nélson Cavaquinho. Sua tristeza era de outro tipo — refinada, contida. Quem me vê sorrindo mostra a distância entre o sorriso e a dor que ninguém vê. Era essa a marca do poeta mangueirense: transformar sofrimento em poesia.
Carlos Cachaça foi, ao lado de Guilherme de Brito, um dos últimos remanescentes da linhagem mais nobre do samba carioca. Avesso aos microfones, costumava ser menos lembrado do que seus colegas de geração Cartola e Nélson Cavaquinho. Mas a poesia de Cachaça há de sobreviver, imortalizada nos versos sublimes de Alvorada e Não quero mais amar a ninguém — obras-primas compostas por ele com Cartola (a primeira levava também a assinatura de Hermínio Bello de Carvalho).
A tristeza de Carlos Cachaça seguia caminho diferente da de Nélson Cavaquinho. Nélson era direto, cru nos retratos da vida. Cachaça transformava tristeza em imagens poéticas que comoviam sem apelar. Sua parceria com Cartola atestava a maestria dele.
Como Guilherme de Brito, Carlos Cachaça era o poeta que, no mais das vezes, ficava à sombra. A parceria com Cartola funcionava bem — Cartola criava melodias e também escrevia letras, mas era Cachaça quem mais assinava os versos. Melodias que pareciam inevitáveis, versos que se encaixavam como se sempre tivessem pertencido ali. Mas o público costuma lembrar mais do rosto que aparece, da voz que canta. O letrista fica nos bastidores, mesmo quando seus versos são os que fazem o samba durar.
A sofisticação poética de Cachaça soava fora de época num tempo que privilegiava a simplicidade, que nem sempre era sinônimo de qualidade. Cachaça representa uma tradição que está desaparecendo: a do poeta que lapida cada verso e entende poesia de samba como ofício.
Mas a poesia verdadeira sobrevive ao tempo. Alvorada continua sendo cantada. Não quero mais amar a ninguém continua tocando quem amou e sofreu. Quem me vê sorrindo continua mostrando que o sorriso esconde dor. Os versos de Carlos Cachaça permaneceram vivos porque são bons demais pra morrer.
Carlos Cachaça não precisou dos microfones pra se imortalizar. Bastaram os versos. E neles, aquela tristeza refinada que não gritava — apenas existia, transformada em poesia.

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