Todo domingo, as crianças do morro da Mangueira sabiam que podiam contar com o sopão. Quem oferecia era Alcione. Quem preparava era tia Miúda, baiana que cozinhava pra escola havia décadas. Pra ela, cuidar da comunidade era obrigação, não favor.
Tia Miúda — Noêmia de Assis no registro, mas ninguém chamava assim — era uma das cozinheiras titulares na cozinha da Mangueira. O apelido vinha de longe: começou a andar aos sete meses, tão pequena que o nome ficou pra sempre. Desfilou por mais de quarenta anos, passou pela Comissão de Frente, foi Rainha das Frutas, Rainha Negra, componente da ala das baianas, diretora. Mas era na cozinha que tia Miúda encontrava outro jeito de servir à Mangueira.
O sopão de domingo nasceu de uma parceria entre Alcione e a escola. A cantora, mangueirense de coração, oferecia a refeição para as crianças do morro. Tia Miúda assumiu a responsabilidade de preparar, gratuitamente. Todo domingo, lá estava ela na cozinha da quadra, temperando, mexendo, provando.
Era trabalho invisível, daqueles que não aparecem em desfile, não ganham manchete, não entram pra estatística de títulos. Mas era trabalho essencial. Porque a Mangueira não era apenas bateria e samba-enredo. Era também panela no fogo, criança alimentada. Tia Miúda sabia disso. E sabia que uma escola de samba que não cuida dos seus não merece o nome que carrega.
A relação de Alcione com a Mangueira sempre foi de devoção verdadeira. A cantora encontrou em tia Miúda a parceira certa pra fazer o sopão funcionar. Alcione bancava os ingredientes, tia Miúda e as demais cozinheiras colocavam a mão na massa. As crianças chegavam domingo após domingo, sabendo que ali haveria comida quente, feita com carinho, servida sem distinção.
Tia Miúda não fazia propaganda do que fazia. Apenas cozinhava, como cozinhava pra escola nos ensaios, nos eventos, nos momentos em que a quadra precisava alimentar sua gente. Era baiana não só pela fantasia que vestia no carnaval, mas pelo cuidado que as baianas sempre tiveram com a comunidade.
Aquele sopão de domingo era extensão do papel que as baianas sempre exerceram na Mangueira. Guardiãs da tradição, sim. Mas também da vida cotidiana, daquela estrutura invisível que sustenta uma escola de samba. Tia Miúda representava essa Mangueira do dia a dia, aquela que funciona longe dos holofotes.
Alcione oferecia o sopão honrando uma tradição mangueirense antiga: quem tem mais cuida de quem tem menos. Tia Miúda preparava a comida reafirmando outra: o samba não se sustenta só de música, mas também de solidariedade.
O sopão de domingo não era caridade — era compromisso. A Mangueira cuidando da Mangueira, como sempre fez, como sempre deveria fazer. E tia Miúda, na cozinha, garantia que aquela tradição não morresse, um domingo de cada vez.
Hoje, quando se fala em Alcione e Mangueira, muitos lembram dos sambas, das homenagens, da devoção da cantora pela escola. Poucos lembram do sopão de domingo. Poucos sabem que havia uma baiana chamada Miúda que, silenciosamente, fazia aquele projeto acontecer. Mas as crianças que comeram daquele sopão sabem. E na Mangueira o nome de tia Miúda permanece vivo — não só como baiana, diretora ou conselheira, mas como a mulher que cozinhava para a comunidade.

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