Foi num domingo de madrugada, início dos anos de 1970, que Nélson Cavaquinho percebeu que tinha perdido o violão. Era presente de um jornalista amigo, companheiro das noites. Tinha saído no sábado para Pilares, participar do júri de um festival de música. A volta foi longa, com percurso cheio de paradas, “depois de umas-e-outras em muitos bares”. Lá pelas tantas, entregou o violão a um dos companheiros. Não sabe qual. E até agora não viu mais.
Segunda-feira a situação piorou. Foi à loja Bandolim de Ouro, na avenida Marechal Floriano, tentar abrir crédito. Escolheu um violão de 600 cruzeiros enquanto aguardava resposta. A casa comercial se recusou a vender sem fiador. Nélson estava magoado. “Depois de tantas alegrias, de tantas homenagens do público, não podiam fazer isso comigo.”
Teve show marcado no Teatro Opinião e precisou pedir violão emprestado. Mas com o lançamento do LP que gravara em São Paulo — previsto para o dia 28 no Rio — prometia comprar violão novo. “E comprar à vista, bonitinho.”
Na tarde de terça-feira, camiseta branca, sandálias havaianas, calça branca, suéter de listras, Nélson afogava as mágoas em conhaque no Bar Fiolhozo, ao lado de casa. A casa ficava no número 158 da rua Quincas Laranjeiras, Jardim América. Dois quartos pequenos. Na sala, máquina de costura, geladeira velha, conjunto de fórmica branco. Na parede um pôster do compositor e várias imagens de santos.
A esposa Durvalina rezava no quarto do casal. Nélson não a interrompeu. “Ela trabalha em um convento. Reza a Ave Maria todos os dias, ajoelhada, rosário na mão. É para não acontecer nenhum desastre comigo.”

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