Waldomiro agitava as mãos nervosamente e soprava o apito com força. A bateria atravessou o ritmo. Crioulo bom, cabelos brancos, diretor de bateria que conhecia cada tamborim, cada surdo, cada cuíca pelo som, ele sentia quando algo saía do lugar. E sentiu. As cabrochas e os passistas pararam. A quadra da Estação Primeira ficou suspensa, esperando.
A caixa continuou firme. O surdo entrou na cadência certa. Aos poucos, tudo voltou ao compasso. Waldomiro recuperou a calma, levantou os braços e agradeceu: “Obrigado, bateria”. As falhas precisavam aparecer nos ensaios para a devida correção. No asfalto, não podia.
Mas tinha uma coisa que Waldomiro sabia e não dizia. A bateria estava afinada, sim. Macário, Pimpolho e Rogério eram excelentes instrumentistas. O trio funcionava, o ritmo saía, a cadência estava lá. Mas a Mangueira sentia falta, em sua bateria tantas vezes campeã, de Carlinhos, o “Pandeiro de Ouro”. Ele estava longe.
Carlinhos tinha alcançado fama. Vestiu roupa cara, deu o braço à Aizila, mulata linda, e partiu para a Europa. Estava na Suíça, com o conjunto “Braziliana”, ganhando aplausos de plateias europeias que nunca tinham visto um pandeiro brasileiro sendo tocado daquele jeito. Perdeu a Mangueira. Ganhou o mundo.
Macário tocava bem. Pimpolho e Rogério seguiam firmes. A bateria não desafinou por causa disso. Waldomiro garantiu que tudo saísse perfeito na avenida. As cabrochas sambaram, os passistas brilharam, a escola desfilou com raça no Carnaval de 1970. Mas na quadra, nos ensaios, quando a bateria parava e todos respiravam, tinha gente que ainda olhava pro espaço onde Carlinhos ficava e sentia o vazio.
Ninguém julgou — cada um sabia das suas escolhas, dos seus caminhos, do que abria mão e do que ia buscar. Mas a Mangueira, bicampeã com ele na bateria em 67 e 68, sentiu falta.

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