“Brilha no céu o astro-rei, com fulguração, abrasando a terra, anunciando o verão”. Quem ouviu esse verso na avenida em 1955 não esqueceu mais. Não era só mais um samba-enredo competindo pela atenção da avenida Rio Branco — era ar novo, a Mangueira dizendo que o samba podia falar de sol, vento, chuva e primavera sem perder a força, sem virar cartão-postal.
O Carnaval de 1955 trouxe a Estação Primeira cantando As quatro estações do ano. Enredo simples na aparência, mas que guardava ousadia: fazer da natureza não cenário, mas protagonista. E conseguiu. Cântico à natureza — também lembrado como As quatro estações do ano ou simplesmente Primavera — entrou para a história como um dos dez maiores sambas-enredo já criados. Não por acaso: tinha melodia marcante e letra que pintava quadros, executada de forma impecável por Jamelão quando gravado pela Continental em 1957.
A composição começou com Alfredo Português e Nélson Sargento. Alfredo, imigrante lisboeta que trocou o fado da Alfama pelo samba da Mangueira, já vinha mostrando talento refinado para versos que fugiam do lugar-comum. Nélson, seu filho de criação, era parceiro constante, afinado no violão e na sensibilidade. Mas o samba ainda precisava ganhar corpo antes de virar o que virou.
Nélson contava, com brilho nos olhos, que a melodia original era mais grave, mais contida. Foi Jamelão quem mudou tudo. No ensaio, decidiu arrematar o refrão em notas altas, ardidas. A plateia reagiu. A obra ganhou corpo. Anos depois, em entrevista, Nélson revelou os detalhes da parceria com Jamelão. Além da intervenção melódica — que por si só já sustentava a coautoria — havia um acordo. Durante a disputa na quadra, enquanto Jamelão segurava o samba no gogó, Alfredo Português lhe fez uma proposta: se topasse gravar o samba, o nome dele entraria na parceria. Promessa feita.
A gravação, no entanto, só viria em 1957 — um ano depois da morte de Alfredo, que se foi em 1956 sem ver o samba registrado em disco. Por respeito à memória do padrasto, Nélson manteve o trato. No elepê Escolas de samba, Jamelão apareceu como coautor. Não por obrigação contratual — mas por lealdade. Naquele tempo, a palavra dada valia mais que contrato.
O que fazia esse samba diferente? Primeiro, a escolha do tema. Enquanto a maioria das escolas buscava enredos históricos, homenagens a vultos nacionais ou episódios marcantes do Brasil, a Mangueira resolveu conversar com Vivaldi. Não literalmente, claro — mas a ideia de estruturar um desfile inteiro em torno das estações do ano tinha parentesco direto com a tradição erudita europeia. Só que aqui, em vez de concerto barroco, era bateria na avenida. Em vez de violinos, cuícas e tamborins. A natureza ganhava sotaque carioca.
A letra não desperdiçava palavra. O verão abrasador, o inverno rigoroso — cada estação descrita com precisão que não caía no piegas. Os versos eram claros: todo mundo entendia, todo mundo sentia. E cada estação era como ala desfilando — ocupava seu espaço e passava.
Jamelão soube o que fazer com aquilo. Sua voz grave, potente, dava peso ao que poderia ter virado coisa leve demais. Ele cantava as estações como quem anuncia chegada de gente importante, com respeito. E aquelas notas altas que ele inventou no ensaio viraram marca registrada do samba. Quando gravou dois anos depois do desfile, consolidou o que a avenida já sabia: aquilo era para ficar.
Alfredo Português carregava essa capacidade rara de ver beleza sem cair no óbvio. Talvez por ser estrangeiro, enxergasse o Brasil ainda meio espantado. Tinha feito isso antes, em Baía de Guanabara, samba da Unidos de Mangueira que também falava de paisagem: “Como é lindo apreciar, fora da barra, o que a natureza deu e quis”. O homem gostava de observar o mundo, de nomear as coisas com cuidado. E quando juntava essa atenção ao talento de Nélson e à potência de Jamelão, o resultado era samba que durava.
Cântico à natureza não ganhou o Carnaval de 1955. A Mangueira ficou em segundo lugar. Mas isso importa menos do que parece. Tem samba campeão que ninguém lembra três anos depois, mas esse era diferente — perdeu e fica setenta anos na memória do povo. Continua sendo cantado em rodas, em festas, em discos. Virou medida de grandeza — quando se fala dos grandes sambas-enredo da história, ele sempre aparece na conversa.
O samba mostra que a Mangueira, quando quer, conversa com Vivaldi sem perder o suingue. E que natureza, na verde-rosa, sempre foi mais que paisagem — é a própria escola.

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